Analistas veem China mais limitada hoje – O Estado de S. Paulo

Na crise de 2008, país contou com pacote de estímulo que garantiu seu crescimento; dificilmente essa injeção de recursos será repetida agora A capacidade de a China neutralizar uma eventual recessão nos Estados Unidos e na Europa é bem mais limitada hoje do que na crise global de 2008, quando Pequim lançou mão de um massivo pacote de estímulo que garantiu taxas de crescimento próximas de dois dígitos e beneficiou países exportadores de commodities, como o Brasil.

A repetição da receita ameaça elevar o patamar de endividamento do país a níveis perigosos, afirmam economistas. Além disso, a inflação na casa dos 6% diminui a margem de manobra de Pequim para reduzir juros e adotar políticas de expansão monetária. A injeção de recursos em projetos de infraestrutura nos últimos dois anos foi financiada por um espetacular aumento do crédito, que dificilmente poderá se repetir desta vez. “Depois da grande explosão de débito em 2009 e 2010, a China está bem próxima do limite de sua capacidade de endividamento”, observou Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim.

Na opinião de Arthur Kroeber, da consultoria Dragonomics, existem “várias boas razões” para Pequim não repetir a receita de 2008. “Os recursos financeiros da China já estão estirados.” Parte das obras feitas com a inundação de empréstimos registrada a partir do fim de 2008 não tem viabilidade econômica e as entidades responsáveis por elas não terão condições de pagar os empréstimos contraídos, o que elevará a quantidade de créditos irrecuperáveis no balanço dos bancos. O rombo acabará sendo pago pelos cofres do governo, que já financiaram uma rodada de saneamento do setor bancário na década passada.

Na hipótese de desaceleração ou recessão nos países ricos, Kroeber acredita que as autoridades chinesas terão de fazer uma escolha entre manter taxas de crescimento de 10% ao ano ou aceitar níveis mais baixos. Na avaliação de Pettis, o impacto sobre o Brasil da ausência de um novo pacote de estímulo não seria necessariamente negativo no longo prazo.

O resultado do boom nos investimentos vivido pela China em 2009 e 2010 foi a explosão no preço das commodities e a elevação das exportações brasileiras de minério de ferro, soja e petróleo. Enquanto esses setores se beneficiaram do aumento da demanda do país asiático, a indústria sofreu com a valorização do real e a importação cada vez maior de produtos manufaturados da China, que também ocuparam lugar de bens brasileiros em terceiros mercados. Segundo ele, a eventual diminuição da compra de commodities pelo país teria o efeito inverso.

A economista-chefe do UBS na China, Wang Tao, ressaltou que a velocidade na expansão do crédito tem sido “alarmante” desde 2008. Os empréstimos bancários passaram de 121% para 150% do PIB em apenas três anos. Em 2009, o sistema financeiro chinês concedeu US$ 1,4 trilhão em empréstimos, o dobro do ano anterior. A cifra diminuiu para US$ 1,2 trilhão em 2010, mas ficou bem acima de 2008. Wang observou que há outras operações de financiamento, que não entram no balanço dos bancos e que permitiram a expansão de crédito além dos limites fixados pelo governo.

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